Mesmo depois de uma sequência de cortes, a Selic estava em 13,75% ao ano em setembro de 2026. Segundo Marcio Alaor de Araujo, executivo do mercado financeiro, juros nesse nível transformam a gestão de caixa em decisão estratégica. O custo de cada real emprestado, o rendimento de cada real parado e o prazo concedido a cada cliente passam a pesar diretamente sobre o resultado, e decisões tomadas no automático podem custar caro.
O custo real do dinheiro emprestado
Com a taxa básica elevada, o crédito para empresas fica significativamente mais caro, sobretudo em linhas de curto prazo, como capital de giro e cheque especial empresarial. Uma dívida contratada sem planejamento pode consumir boa parte da margem operacional, e empresas que dependem de financiamento contínuo para funcionar ficam especialmente vulneráveis ao custo dos juros.
Revisar a estrutura de endividamento torna-se prioridade. Trocar dívidas caras por linhas mais baratas, alongar prazos quando possível e evitar o uso recorrente de modalidades emergenciais reduz o peso financeiro. Em muitos casos, renegociar com bancos ou buscar alternativas no mercado de capitais gera economia relevante ao longo do ano e libera recursos para a operação.
Caixa parado também tem custo
Na outra ponta, empresas com recursos sobrando precisam decidir onde aplicá-los. Manter dinheiro parado em conta corrente, sem rendimento, significa abrir mão de um retorno expressivo em um cenário de juros altos. Aplicações conservadoras de renda fixa, com liquidez compatível com as necessidades da operação, preservam o valor do caixa sem expor a empresa a riscos desnecessários.
Sob a ótica de Marcio Alaor de Araujo, uma política formal de aplicação do caixa evita decisões improvisadas. Separar os recursos em faixas, como reserva para necessidades imediatas, reserva de segurança e recursos disponíveis para prazos mais longos, permite buscar rendimento sem comprometer a capacidade de pagar fornecedores, salários e tributos em dia.
Prazos com clientes e fornecedores
Em um ambiente de juros altos, prazo é dinheiro. Conceder 60 ou 90 dias para o cliente pagar equivale, na prática, a financiá-lo com recursos próprios ou com crédito caro. Muitas empresas ampliam prazos para vender mais sem calcular o custo financeiro embutido na operação, e acabam com vendas maiores e resultado menor no fim do período.

Como sublinha Marcio Alaor de Araujo, rever a política comercial à luz do custo do dinheiro é uma das medidas de maior impacto. Descontos para pagamento antecipado, prazos diferenciados conforme o perfil do cliente e negociação de prazos mais longos com fornecedores ajudam a equilibrar o ciclo financeiro e reduzem a necessidade de capital de giro.
Investir ou esperar
Juros elevados também elevam a régua para novos investimentos. Um projeto de expansão precisa oferecer retorno superior ao que o mesmo dinheiro renderia em aplicações de baixo risco, além de compensar a incerteza envolvida. Com a renda fixa pagando taxas altas, muitos investimentos que pareciam atrativos deixam de fazer sentido quando analisados com rigor.
Esperar, no entanto, também tem custo. Concorrentes podem ocupar espaços, oportunidades de aquisição podem desaparecer e equipamentos defasados reduzem a eficiência. A decisão exige analisar cada projeto individualmente, considerando a expectativa de queda dos juros, a estratégia de longo prazo e a capacidade da empresa de financiar o investimento sem comprometer o caixa.
Gestão de caixa como rotina da diretoria
Em muitas empresas, o caixa ainda é acompanhado apenas pela área financeira, de forma operacional. Com juros altos, o tema precisa chegar à diretoria, com projeções de fluxo de caixa para os meses seguintes, cenários alternativos e indicadores de liquidez. A antecedência permite agir antes que um aperto se transforme em crise e decidir com mais calma.
Na percepção de Marcio Alaor de Araujo, empresas que fazem uma boa gestão de caixa atravessam ciclos de juros altos com mais tranquilidade e saem deles mais fortes. Com dívidas sob controle e recursos bem aplicados, ficam em posição privilegiada para investir e crescer quando o custo do dinheiro voltar a cair e as oportunidades reaparecerem.
