Haroldo Augusto Filho, executivo com atuação em negociação empresarial e estruturação de soluções corporativas, descreve um cenário comum em processos decisórios apressados: uma diretoria recebe uma proposta de aquisição com prazo curto para responder, e a resposta sai antes mesmo de todas as áreas relevantes serem consultadas sobre os riscos envolvidos naquele negócio. Meses depois, os riscos que uma análise mais lenta teria apontado aparecem na forma de custos que ninguém havia previsto na hora da decisão, quando ainda parecia que agir rápido bastava para garantir o melhor resultado possível.
A rapidez daquela resposta foi comemorada internamente como sinal de agilidade executiva, mas essa leitura é um dos equívocos mais recorrentes em processos decisórios complexos: tratar a velocidade da resposta como prova de competência, quando ela pode ser apenas ausência de análise.
Por que confundir velocidade com competência é um erro comum?
Decidir rápido parece, à primeira vista, sinal de confiança e controle sobre a situação. Uma resposta imediata transmite firmeza, enquanto pedir tempo para analisar pode ser lido, por quem está de fora, como hesitação ou despreparo. Essa pressão social por respostas rápidas cria um incentivo torto, visto que recompensar quem decide primeiro não necessariamente quem decide melhor diante das informações disponíveis naquele momento.
Haroldo Augusto Filho nota que esse incentivo torto se fortalece em ambientes competitivos, em que a comparação entre lideranças costuma valorizar quem parece mais decidido, e não quem efetivamente acertou mais ao longo do tempo. O problema aparece quando essa lógica é aplicada a decisões que não têm nada de simples, em cenários de alta incerteza, com várias variáveis interligadas entre si. Nesses casos, o tempo de análise não é desperdício: é o que permite identificar consequências que só aparecem quando alguém se dispõe a procurá-las com atenção antes de agir.
O que uma decisão rápida sacrifica em ambientes complexos?
A pressa reduz o número de alternativas consideradas antes de decidir. Quando o prazo é curto, a mente tende a fixar na primeira solução razoável que aparece e simplesmente descarta variações que poderiam gerar um resultado melhor, sem que ninguém perceba o que ficou de fora daquela análise apressada.
Uma decisão tomada sob pressão é sempre pior do que uma decisão mais lenta? Não necessariamente. O problema não é a velocidade em si, mas decidir rápido sem ter mapeado antes as variáveis que realmente importam para aquele cenário específico.

Esse mapeamento prévio é o que separa uma decisão ágil de uma decisão apressada. Quando ele já foi feito, decidir rápido significa apenas executar um raciocínio que já estava pronto, testado em condições menos urgentes. Quando não foi, decidir rápido significa pular direto para uma conclusão sem testar se ela realmente resolve o problema em questão, ou apenas empurrar esse problema para uma data futura. Nesse sentido, Haroldo Augusto Filho reflete que esse tipo de preparo prévio raramente aparece nos relatos sobre a decisão depois de tomada, o que faz a velocidade parecer o único ingrediente do sucesso.
Como a pressa esconde o custo real de uma escolha?
Um dos efeitos menos visíveis da decisão apressada é que o custo dela raramente aparece no mesmo momento em que a escolha é feita. Ele se manifesta semanas ou meses depois, na forma de retrabalho, renegociação ou correção de rota, e, nessa distância de tempo, fica difícil associar o problema atual à decisão original que o causou lá atrás. Quem participou da decisão original, com frequência, já nem lembra os detalhes que a motivaram.
Haroldo Augusto Filho aponta que esse atraso entre a decisão e o custo dela é justamente o que sustenta a ilusão de que decidir rápido funcionou. Quando o problema aparece meses depois, raramente alguém volta à decisão original para questionar se ela foi bem tomada, e o padrão de decidir apressadamente se repete na próxima situação parecida, sem que ninguém perceba o ciclo se formando.
A decisão certa nem sempre parece a mais ágil no momento em que é tomada
Existem situações em que decidir rápido é, de fato, a escolha certa, principalmente quando o custo de esperar supera qualquer ganho possível de uma análise mais longa sobre o mesmo problema. A diferença entre essas situações e o erro recorrente descrito aqui não está na velocidade da resposta, mas em saber se aquela pressa nasceu de um julgamento deliberado ou apenas do desconforto de conviver com a incerteza por mais tempo.
Aprender a distinguir os dois casos é o que, segundo Haroldo Augusto Filho, evita transformar agilidade em desculpa para decisões malfeitas. A competência real não está em responder rápido nem em demorar por princípio, mas em reconhecer, a cada situação, quanto tempo de análise aquele cenário específico realmente exige antes de qualquer resposta ser dada aos envolvidos. Quem decide bem raramente precisa provar isso pela velocidade da resposta, e sim pelo resultado que ela produz meses depois de tomada.
